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A Desaceleração da Economia Chinesa: Impacto em Commodities, Cadeias de Suprimentos e no Brasil

Por décadas, a ascensão da China foi uma das histórias de maior sucesso na economia global. O “gigante adormecido”, impulsionado pelas reformas de Deng Xiaoping e pela entrada na OMC, se transformou na fábrica do mundo, crescendo a taxas impressionantes e se tornando um motor para o comércio internacional e para a demanda por matérias-primas.

No entanto, podemos estar diante do momento em que esse crescimento altíssimo comece a diminuir. A China enfrenta agora o que muitos economistas chamam de “novo normal”: um crescimento mais moderado, impactado por desafios internos como uma crise imobiliária, o envelhecimento da população e a busca por um modelo econômico mais focado no consumo.

A grande questão é: como a desaceleração da segunda maior economia do mundo afeta o resto do planeta? Neste artigo, vamos mergulhar nos efeitos dessa transformação chinesa, analisando como afeta mercados de commodities, redes de suprimentos globais e, claro, no Brasil, um dos seus maiores parceiros comerciais.


O “Milagre Chinês”: A Ascensão de 1970 a 2010

Para entender o cenário econômico da China hoje, é essencial olhar para trás. A grande virada aconteceu no final dos anos 70, com as reformas de Deng Xiaoping. Ele começou a desmontar a economia comunista fechada e abriu o país para o mundo. Isso atraiu investimentos e permitiu o surgimento de um mercado privado.

Entretanto, esse processo ocorreu sob forte controle do Partido Comunista, com o governo mantendo a posse e a gestão de setores estratégicos como energia, transporte e telecomunicações.

O ponto de aceleração máxima foi em 2001, quando a China entrou para a Organização Mundial do Comércio (OMC). Rapidamente o país se tornou a “fábrica do mundo”, com um fluxo altíssimo de exportações e produção em massa. Com isso, o PIB chinês disparou, chegando a crescer mais de 10% anualmente por um bom tempo.


Crescimento anual do PIB chinês

Nesse período, o país construiu uma infraestrutura gigantesca e transformou sua economia, tirando centenas de milhões de pessoas da pobreza. Essa era de crescimento, porém, foi construída com base em pilares que, com o tempo, se tornariam insustentáveis.


Os Motivos da Desaceleração Recente

Se a era de ouro da China foi movida por um motor de exportações e investimentos em infraestrutura, o “novo normal” é a constatação de que esse motor não é mais sustentável. A desaceleração recente, que preocupa os mercados globais, não é um acidente, mas um reflexo de desafios estruturais e de uma mudança de estratégia do próprio governo.

Um dos maiores calcanhares de Aquiles foi o mercado imobiliário. Por muito tempo, ele foi o principal impulsionador da economia, mas a especulação e o alto endividamento das construtoras criaram uma bolha que, ao estourar, gerou uma enorme crise de confiança. Pessoas que investiram a vida toda em imóveis não finalizados sentiram o impacto na pele. No gráfico abaixo podemos ver a queda acentuada no preço de imóveis novos na China a partir de 2023.


Fonte: Banco Nacional de Estatísticas da China (NBS)

Outro ponto é a demografia. A China, a maior população do mundo, está envelhecendo. Isso mesmo. O legado da política do filho único é uma pirâmide etária que hoje tem menos jovens para trabalhar e mais idosos para sustentar, o que, no longo prazo, é um freio natural para o crescimento. O gráfico abaixo mostra que até 2023, a taxa de nascimento por mulher é de 1.


Fonte: Banco Mundial

O governo, por sua vez, está tentando guiar a economia para um novo caminho: em vez de fabricar produtos baratos para o mundo, a meta é impulsionar a inovação e o consumo interno. Mas essa mudança tem sido extremamente desafiadora, muito por conta da alta poupança da população chinesa, chegando a poupar 50% da sua renda, desaquecendo a economia do país (inflação baixíssima), como mostram os gráficos a seguir.


Crescimento da poupança da população (azul) X Crescimento do consumo (vermelho)

Fonte: Fundo Monetário Internacional (FMI)


Meta de inflação do Banco Central Chinês é de 3%

Fonte: Investing


Por fim, as guerras comerciais e tecnológicas com os EUA também jogam areia na engrenagem, fazendo a China buscar soluções internas e repensar suas conexões com o resto do mundo.

Impacto Global: O efeito da desaceleração chinesa no mundo

Se a China, a segunda maior economia do mundo, está em um ritmo mais lento, é inevitável que esse movimento chegue aos quatro cantos do planeta. O que acontece na economia chinesa tem um impacto direto na sua vida, no bolso de outros países e no futuro do comércio global.

1. A Força da Demanda Chinesa

A China é o maior consumidor global de matérias-primas, e a saúde de sua economia está diretamente ligada aos preços das commodities. A crise no setor imobiliário, por exemplo, impactou diretamente a demanda por minério de ferro, que é vital para o setor de construção. Com menos obras, a demanda por minério de ferro caiu, pressionando os preços para baixo. O Brasil, como um dos maiores exportadores, sente esse efeito na pele, já que a commodity é uma de suas principais fontes de receita.A mesma lógica se aplica à soja, onde uma menor demanda chinesa impacta diretamente a balança comercial do agronegócio brasileiro.

Fonte: ComexStat

2. A Reconfiguração das Cadeias de Suprimentos

Por décadas, as grandes empresas globais usaram a China como a sua principal base de produção. Era a fábrica mais barata e eficiente do mundo, você já deve ter ouvido falar de alguma empresa americana (Nike, por exemplo) que produz seus produtos na China, com mão de obra barata, buscando ter mais margem de lucro nas suas vendas.

Mas as tensões geopolíticas com os Estados Unidos e a busca por mais segurança estão mudando esse cenário. Começamos a ver um movimento de nearshoring, onde empresas buscam países mais próximos, como o México, para produzir. E também um friendshoring, com a realocação para países aliados. Esse movimento de saída da China é lento, mas pode redesenhar as cadeias de suprimentos globais, o que pode ser uma ameaça para a China, mas uma oportunidade para outros países emergentes.

3. Comércio Global em transformação?

A China é, ao mesmo tempo, o maior exportador e o segundo maior importador do mundo. Sua desaceleração impacta o comércio global de duas formas:

Menos Demanda por Importações: Uma economia mais fraca consome menos, o que afeta diretamente países exportadores (como o Brasil, com suas commodities).

Mais pressão por Exportações: Para compensar a fraqueza interna, a China tende a aumentar o volume de suas exportações. No entanto, essa estratégia gera tensões, já que países como os Estados Unidos e a Europa acusam a China de vender produtos a preços abaixo do custo e impõem barreiras comerciais para proteger suas indústrias.


O Futuro da Economia Chinesa e o Papel do Brasil

O milagre econômico chinês pode ter mudado de ritmo, mas não de direção. A China está em uma nova fase, tentando trocar a “fábrica do mundo” por um centro de inovação e tecnologia, e a mão de obra barata por um mercado de consumo robusto.

O sucesso ou fracasso dessa transição terá consequências diretas para todos os países, e o Brasil é um dos mais expostos a essa transformação. Se por um lado a China pode se tornar um mercado ainda mais competitivo em produtos de alta tecnologia, por outro, ela segue sendo a maior compradora de nossas commodities.

A desaceleração chinesa é um alerta: a dependência de um único grande comprador, como o Brasil tem da China, nos torna vulneráveis. O futuro da economia brasileira, portanto, não pode ser apenas seguir exportando mais do mesmo. A nova realidade exige que nosso país diversifique seus parceiros comerciais e encontre novos mercados, sob o risco de ser pego desprevenido por uma mudança de rumo no gigante asiático.

Enquanto a China busca um novo modelo para seu futuro, o Brasil precisa, urgentemente, repensar o seu.


Rafael Fernandes,
Consultor de investimentos, CFP, da Musa Capital

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